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Ubisoft acelera corte de 100 vagas e expõe fim da “bolha subsidiada” nos estúdios alemães

Sem alarde público nem carta aberta aos fãs, a Ubisoft iniciou esta semana uma rodada de negociações individuais para que cerca de 100 funcionários de seus estúdios alemães peçam desligamento “por vontade própria”. O alvo são as equipes de Düsseldorf, Mainz e Berlim — o tripé criado pela francesa para transformar a Alemanha em polo de títulos de estratégia e suporte às superproduções globais.

O número absoluto parece modesto diante dos mais de 900 postos mantidos no país, mas sinaliza o fim de um ciclo: nos últimos dez anos, a Ubisoft foi a maior destinatária de subsídios estaduais para games na Alemanha. O recuo agora põe em xeque projetos como o novo The Settlers — já adiado duas vezes — e altera o roteiro de futuros pedidos de incentivo público, tema sensível às vésperas das eleições regionais.

Corte encerra a fase de crescimento turbinado por verbas locais

De 2014 a 2022, Düsseldorf e Mainz receberam mais de €20 milhões em recursos de fundos regionais, segundo registros dos ministérios de Economia da Renânia do Norte-Vestfália e da Renânia-Palatinado. O dinheiro viabilizou a expansão do estúdio Blue Byte, responsável por Anno 1800 e pelas novas experimentações de realidade virtual do grupo. Em Berlim, a Ubisoft surfou em incentivos federais ligados à indústria criativa para compor times de suporte a Far Cry e Rainbow Six.

A estratégia era clara: usar o câmbio estável do euro, salários mais baixos que os de Montreal e, sobretudo, apoio político para sedimentar cadeias de produção longe da matriz francesa. A conta mudou quando a inflação europeia puxou custos trabalhistas e os governos locais reduziram a fatia de reembolsos por projeto de 50% para 25% em média. Sem o oxigênio dos cofres públicos, o quadro de pessoal crescido a toque de caixa virou custo prioritário de corte.

Por que a Ubisoft prefere o “acordo amigável” ao aviso-prévio

Em vez de anunciar demissões formais — que na Alemanha ativam longos processos judiciais e representam até 12 meses de salário em indenizações —, a publisher oferece pacotes de saída voluntária com bônus imediatos e extensão de plano de saúde. A fórmula ganhou terreno após a reformulação conduzida na sede de Paris, onde cortes em 2023 custaram caro em imagem e em caixas de rescisão.

Além de minimizar litígios, o modelo ajuda a Ubisoft a salvar o incentivo já recebido: ao provar que não houve “layoff compulsório”, a companhia evita cláusulas de devolução de subsídios previstas em contratos regionais. Esse detalhe jurídico raramente mencionado fora da imprensa econômica europeia explica a pressa em buscar acordos individuais antes que o assunto chegue ao conselho de trabalhadores local.

Efeito dominó nos projetos de estratégia e suporte

Internamente, a redução atinge principalmente cargos de QA e design de economia, duas funções que, segundo fontes próximas à empresa, serão centralizadas em Montreal e Bucareste. Jogos como Anno Next — ainda sem anúncio oficial — podem sofrer reescalonamento de escopo, enquanto a unidade de Berlim, que dava retaguarda a Rainbow Six Mobile, já renegocia prazos com a matriz.

Parte da equipe deslocada de Düsseldorf deve migrar para projetos experimentais de serviços pós-console, alinhando-se à nova diretriz de “jogabilidade perene” defendida pelo CEO Yves Guillemot. Mas a fuga de talentos assusta concorrentes alemães menores, que temem perder profissionais para polos mais estáveis como Helsinque e Estocolmo, alimentando um vácuo de mão de obra local justamente quando o governo federal discute ampliar o teto de incentivos em 2025.

Se a Ubisoft confirmar outras saídas até o fim do verão europeu, a jogada pode desencadear revisão de verbas públicas para todo o setor — e tornar a aguardada Gamescom, em agosto, o palco de um debate que vai muito além do hype dos lançamentos.

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