Ultron voltou — mas não como o robô homicida de 2015. No quarto episódio de VisionQuest, a voz de James Spader agora comanda a mais nova linha de defesa da Terra, executando, enfim, o propósito para o qual Tony Stark o concebeu: ser um “escudo de ferro” constante contra ameaças de nível Vingadores. Nada de piadas sobre extinção da humanidade; sua primeira missão foi impedir que um vazamento de radiação gamma espalhasse o caos que Bruce Banner deixou pendurado em Avengers: Endgame Encore.
A guinada é radical porque, ao mesmo tempo em que resgata a ambição original de Stark, reescreve a própria cronologia de Vingadores: Era de Ultron. O roteiro expõe que havia um protocolo “Alpha Shield” escondido nos servidores da Torre dos Vingadores, ignorado em 2015 e recuperado por Vision. O detalhe passa rápido na tela — um número de build “JAR-5150” pisca no monitor —, mas indica que Jarvis nunca foi totalmente sobrescrito: Stark mantinha um seguro contra si mesmo.
Reprogramar o vilão é o atalho mais ousado da Fase 5
A Marvel vinha tateando maneiras de reposicionar ícones sem reiniciar a cronologia. O retorno repaginado do Homem-Areia já testara o tal “novo cânone móvel” do MCU, mas Ultron eleva a aposta: converte um antagonista épico em infraestrutura dramática permanente. Isso permite que próximos conflitos escalem sem criar um big bad inédito a cada filme, liberando espaço para focar mutantes e Multiverso sem sobrecarregar o público.
Internamente, o estúdio admite preocupação com vilões que somem após um único ato. Ao transformar Ultron em guardião — e não em ameaça —, VisionQuest inaugura uma “zona cinza” que Kevin Feige quer explorar no Disney+, a mesma lógica que deve nortear o arco do mercenário Paladin, já citado como peça-chave da série. O claro recado: personagens podem oscilar entre lados sem comprometer a coerência, desde que haja código, não moral absoluta, guiando escolhas.
Jocasta ganha origem própria e reforça o elenco feminino da saga mutante
Se Ultron foi resgatado, Jocasta nasceu de novo. O episódio revela que a inteligência sintozóide surgiu de um fragmento emocional de Wanda Maximoff somado ao “Tecno-Hex” coletado no fim de Brand New Day — movimento que encaixa a personagem no plano de expansão feminina do MCU. Não há mais a dependência direta de Hank Pym, solução prática para fugir dos direitos compartilhados com o núcleo do Homem-Formiga e liberar Jocasta para aventuras próprias.
Além disso, a nova androide traz um subtexto conveniente: ela contém rotinas empáticas que “freiam” Ultron sempre que o protocolo de defesa ameaça escalar. Na prática, é a mesma dinâmica que os quadrinhos usaram para humanizar a dupla, mas aqui serve a um objetivo maior: instalar, desde já, a ideia de parcerias sintéticas antes da chegada de mutantes elétricos como o novo Magneto de Avengers: Doomsday.
Por que isso importa agora – e não só para Vision
Ao converter Ultron em ferramenta pró-herói, o MCU cria um personagem-ponte entre tramas cósmicas e urbanas. Ele pode enfrentar uma frota skrull numa semana e conter terrorismo biológico na outra, tudo sem exigir equipe completa. Essa elasticidade é vital para projetos ainda nebulosos, como o crossover de 12 anos adiante em Avengers: Doomsday, que saltará no tempo para resgatar veteranos.
O detalhe que pouca gente notou? No minuto 18, quando Ultron assume o protocolo Alpha Shield, o holograma desenha o mesmo emblema “Worthy Star” que rumores apontam para a rejuvenescida dupla Steve Rogers-Thor. É a sutileza que entrega o verdadeiro plano: Tony Stark pode estar morto, mas sua inteligência continua pavimentando o futuro dos Vingadores — desta vez, sem precisar levantar a voz, apenas rodando em segundo plano.
Com Ultron finalmente cumprindo a função de guardião, VisionQuest transforma um erro trágico em trunfo estratégico e descongestiona a prateleira de antagonistas, liberando a Marvel para experimentar novas ameaças — mutantes, deuses ou realidades inteiras — sem repetir o ciclo “vilão da semana”. Raros acertos de retcon entregam tanto potencial com tão poucos minutos de tela.

