A página de Zenless Zone Zero na PlayStation Store amanheceu com um selo novo — e menos permissivo. O RPG urbano da HoYoverse, antes liberado para maiores de 12 anos, agora exige idade mínima de 16 na Europa. A alteração ainda não aparece no PC nem no Xbox, mas a própria PEGI confirma que o processo de revisão vale para todas as plataformas.
À primeira vista pode parecer apenas um ajuste burocrático, mas o movimento chega quando o bloco europeu esboça restrições concretas a loot boxes e a publicidade que associa gacha a público infanto-juvenil. Se Genshin Impact continuou intocado em PEGI 12, o salto de Zenless Zone Zero sinaliza que algo mudou não no jogo, mas na leitura regulatória sobre como ele monetiza e representa violência estilizada.
Mudança expõe dilema entre proteção a menores e modelos gacha
Desde 2022, comissões de consumidor da Bélgica, Holanda e Espanha pressionam por rótulos claros sobre “mecânicas de aposta”. Nada ainda virou lei europeia ampla, mas a PEGI tem apertado a lupa: títulos com loot boxes não transparentes passaram a levar o ícone de “compras aleatórias” — e, em casos específicos, também sobem de faixa etária. Fontes do setor relatam que o dossiê de ZZZ chegou à organização no fim de março e chamou atenção pela combinação de tiros realistas, dano visual aprimorado e um sistema de banners temporários que incentiva gastos rápidos.
Essa sinergia entre estética mais “pé no chão” e microtransações de alto risco para carteiras jovens pesou no veredito. O selo 16 não proíbe adolescentes de gastar, mas joga a responsabilidade sobre pais e plataformas: distribuir cartões-presente ou códigos promocionais para menores pode virar dor de cabeça jurídica, cenário que já afeta experiências no Roblox, como se viu na recente “Guerra dos cupons: Jump To Steal An Egg”.
PlayStation saiu na frente na revisão — e isso não é acaso
Sony tem histórico de agir antes dos rivais quando o assunto é conformidade. No ano passado, a gigante vetou provisoriamente skins suspeitas de uso de IA em Battlefield 6, enquanto a concorrência simplesmente esperava um patch. Segundo executivos próximos da certificação, a PlayStation solicitou reanálise ao detectar que cenas de pré-lançamento mostravam ferimentos mais detalhados que a build avaliada em 2023.
Nessa lógica, colocar imediatamente o selo 16 evita retrabalho de marketing e possíveis reembolsos pós-lançamento. Para a HoYoverse, o impacto financeiro não é trivial: estimativas internas apontam que 38% da base europeia de Genshin Impact está entre 13 e 15 anos. Mesmo que esses jogadores consigam chegar ao game via conta adulta, a barreira psicológica reduz impulsos de compra — especialmente em consoles, onde transações exigem cartão salvo no perfil.
Reclassificação pressiona futuro de Genshin e da própria HoYoverse
O curioso é que o salto de Zenless Zone Zero coloca holofotes sobre o “irmão mais velho” Genshin Impact. Se o novo padrão da PEGI associa gacha + violência equiparável a tiro realista à faixa 16, até quando o RPG de fantasia colorida segura o PEGI 12? Analistas de mercado preveem que, a cada atualização gráfica, a desenvolvedora precisará negociar limites de sangue e pornografia velada — algo que outros estúdios já experimentam para evitar reação em cadeia.
A HoYoverse corre contra o relógio para não repetir o prejuízo de Ghost of Yotei, que mostrou como vender menos, mas faturar igual depende de margens altas por unidade. No mobile, a queda de classificação etária não muda a vida de quem cria conta com data de nascimento fictícia; em consoles, contudo, o gate imputado pelo sistema operacional pode custar até 20% no tíquete médio inicial, segundo consultorias ligadas ao PS6 e à próxima geração de hardware de quatro dígitos.
Se a nova etiqueta serve de alerta ou de teste-piloto para políticas mais duras, ainda é cedo para cravar. O que já está claro é que a Europa trocou o aviso de “fique de olho” por um “maior de idade parcial”. Para a HoYoverse, isso significa repensar como vender emoção sem infantilizar a roleta digital — e, sobretudo, sem colocar na conta do jogador adolescente a fatura que agora chega com juros regulatórios.

