Um recado silencioso, mas estrondoso, saiu do palco da Anime Expo: a Aniplex oficializou o longa de Solo Leveling para 2027, já com o selo “lançamento global”. A mensagem é clara: o próximo blockbuster de anime quer a coroa que Demon Slayer: Mugen Train segurou sozinho por quatro anos, com US$ 507 milhões somados no mundo.
Por trás da euforia dos fãs, o anúncio revela a primeira grande tentativa de corrigir o “efeito funil” criado pelo próprio sucesso de Tanjiro: janelas domésticas longas, atraso no Ocidente e pirataria explodindo no vácuo. Se Solo Leveling acertar a logística que a franquia dos Hashira ignorou, o recorde pode cair antes da virada da década.
Webtoon milionário e estreia sincronizada turbinam a aposta
Diferente de Demon Slayer, cujo mangá cresceu primeiro no Japão, Solo Leveling nasceu digital, em coreano, e já contabiliza mais de 14 bilhões de leituras globais no Webtoon. Esse pedigree “sem fronteiras” convenceu a Sony a costurar, desde já, distribuição quase simultânea em 50 mercados — alvo que Mugen Train só alcançou dez meses depois da estreia japonesa.
O estúdio A-1 Pictures, que animou a série de TV, recebeu sinal verde para um orçamento 30% maior do que o aplicado na primeira temporada, segundo pessoas envolvidas na produção. O pacote inclui tecnologia de tracking facial para cenas de animação 3D híbrida, a mesma ferramenta recém-testada no novo design de Gojo em Jujutsu Kaisen.
Três fatores sustentam a meta de bilheteria acima de US$ 500 milhões:
- Pré-venda conjunta de ingressos e skins especiais em jogos mobile ligados ao webtoon;
- Campanha de marketing ancorada em streamers coreanos e hispânicos, mirando públicos onde Tanjiro não chegou ao mainstream do cinema;
- Contratos fechados com redes IMAX na América do Norte, Europa e Sudeste Asiático para sessão zero, 24 horas após a première de Tóquio.
O modelo dá musculatura a um título que já entrou na lista dos “imortais” mais rentáveis da última década mesmo antes do primeiro quadro ser animado.
Risco de repetir o erro de Demon Slayer ainda ronda o projeto
Embora a promessa de lançamento global seja o grande trunfo, a decisão final de calendário continua nas mãos das redes de cinema japonesas, que pressionam por exclusividade de 6 a 8 semanas. Foi exatamente essa engrenagem que travou Demon Slayer fora da Ásia em 2020 e alimentou cópias ilegais que circularam 40 milhões de vezes, de acordo com estimativa da consultoria MUSO.
O comitê de Solo Leveling tem as mesmas peças-chave de Demon Slayer — Aniplex, Sony Music e distribuidoras regionais parceiras — o que acende o alerta para uma recaída. Sem janela simultânea, o filme sofreria com três obstáculos: vazamento de cenas em 4K por fãs coreanos, fadiga de conteúdo (a terceira temporada do anime de TV chegará ao mesmo tempo) e concorrência direta com o longa inédito de Jujutsu Kaisen, previsto para o mesmo trimestre.
Corrida dos estúdios redesenha o calendário de blockbusters até 2027
Assim que Solo Leveling marcou posição, rivais correram para blindar espaço na agenda. O terceiro filme de My Hero Academia ganhou sinal verde na Toho, enquanto a Bandai Namco agendou o capítulo final de Dragon Ball Super em IMAX, movimento parecido com o uso do último design aprovado por Akira Toriyama em Xenoverse 2. A meta de todos eles: chegar aos cinemas antes ou logo depois do longa de Sung Jin-Woo, pegando carona na migração de público que Demon Slayer provou existir, mas não conseguiu reter por falta de oferta simultânea.
Se a produção coreano-japonesa conseguir cumprir a estreia sincronizada, vira o novo padrão de ouro para animes de grande orçamento. Caso ceda às velhas pressões do mercado doméstico, o trono de Tanjiro seguirá intacto — e o setor continuará perdendo dinheiro para a mesma pirataria que ele próprio incentiva.
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