Em 2022, a mesma Pierrot que segura franquias como Naruto e Black Clover anunciou, com alarde, a compra dos direitos de um isekai coreano tratado nos bastidores como “o próximo Solo Leveling”. Dois verões depois, não há teaser, lista de dubladores nem vaga na grade de TV. O projeto sumiu do site oficial do estúdio, mas continua preso a contratos que impedem outro estúdio de assumir.
Esse silêncio é mais do que atraso comum: escancara a dificuldade da indústria japonesa em digerir webtoons no ritmo que a Coreia e serviços globais, como a Netflix – que já mostrou a primeira foto do live-action de Solo Leveling – exigem. A disputa por licenças ficou cara, os calendários estão entupidos e a Pierrot virou exemplo de como o modelo de comitê pode engessar a “próxima grande hype”.
Comitê japonês x agilidade coreana: choque de modelos
Enquanto webtoons são financiados quase inteiramente por plataformas como KakaoPage e Naver, o anime tradicional depende de um consórcio de editoras, emissoras, fabricantes de brinquedos e, às vezes, streamings. Essa costura leva meses para travar orçamentos, definir metas de merchandising e encontrar espaço na programação. No caso do projeto da Pierrot, o acordo envolveu um investidor coreano que queria estreia já em 2023 – data impossível para um estúdio que, no mesmo período, precisou realocar equipes para Bleach: Thousand-Year Blood War e para o filme de Black Clover.
Resultado: a parte coreana segurou material inédito do autor até receber garantias de janela definida; o consórcio japonês recusou avançar sem storyboard fechado. O impasse jurídico, segundo pessoas próximas ao comitê, impede até divulgação de rascunhos. É a antítese do modelo coreano de produção paralela, no qual teaser e piloto podem sair antes mesmo do contrato final.
A conta da Pierrot estoura no cronograma – e no bolso
Por dentro da planilha, a Pierrot já trocou três diretores de produção ligados ao projeto, cada um realocado para tarefas urgentes: a reformulação de Boruto, a supervisão do spin-off de Naruto e o reforço na animação 3D do game-serviço Bleach: Brave Souls. Cada mudança exige novo estudo de cronograma, o que eleva o custo de pré-produção sem um único minuto animado.
O gargalo também é de mão de obra. Depois da reforma trabalhista que encurtou horas extras no Japão, freelancers experientes passaram a priorizar contratos mais curtos em estúdios como MAPPA e A-1 Pictures, que entregaram Jujutsu Kaisen e o próprio Solo Leveling. A Pierrot, conhecida por séries longas, perdeu poder de atração justamente quando precisava montar um time específico para a obra coreana.
Risco de perder o timing do hype
Com o live-action de Solo Leveling em filmagem e animes como Viral Hit e A Returner’s Magic já no ar, o vácuo da Pierrot ameaça esfriar o interesse global em seu “próximo hit”. Plataformas ocidentais começam a sondar estúdios coreanos ou mesmo chineses – estratégia que Togashi antecipou ao usar mídias cruzadas em Hunter x Hunter. Se outra produtora der sinal verde primeiro, o anime da Pierrot corre o risco de chegar como “mais um” em vez de “o primeiro pós-Solo Leveling”.
Até agora, o comitê não fala em desistência, mas avalia trocar a janela de TV por estreia direta em streaming, onde a exigência de 12 ou 24 episódios seguidos é menor. É uma manobra que pode salvar o orçamento, mas também indica que o Japão, mesmo à frente do anime há décadas, precisa rever processo e ego para não perder o bonde dos webtoons – exatamente o que a demora da Pierrot deixou claro.
No fim das contas, o que parecia simples hype virou estudo de caso: não basta comprar o “próximo Solo Leveling”; é preciso entregar antes que o público mude de capítulo.
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