Seis meses depois de aposentar Ash Ketchum na série de TV, a Pokémon Company tirou outro Coelho da Pokébola: uma edição especial que agrupa, pela primeira vez, todos os 24 longas estrelados pelo treinador e por Pikachu. O pacote — ainda sem preço oficial — chegará ao Japão em formato físico e digital, com lançamento ocidental previsto para 2025.
A notícia empolga pela nostalgia, mas o recado corporativo é mais ruidoso: ao recomprar direitos repartidos entre Warner, Miramax e plataformas de streaming, a empresa passa a controlar todo o acervo cinematográfico do personagem justamente quando tenta convencer o público de que a era Ash ficou para trás.
Quebra-cabeça de licenças vira peça-chave da nova estratégia
Dos 24 filmes produzidos entre 1998 e 2020, apenas sete podiam ser exibidos hoje no mesmo serviço de streaming. Cada fase do anime foi negociada isoladamente, criando um labirinto legal que impedia maratonas completas. A coletânea resolve o impasse: todos os contratos foram recompostos em regime de exclusividade temporária — palavra-chave que já desperta o interesse de Netflix, Disney e Crunchyroll, protagonistas da disputa discutida na análise “Verão 2026 sem tela”.
Executivos próximos à negociação relatam que o objetivo é simples: ter algo que apenas a Pokémon Company possa oferecer integralmente. Ao mesmo tempo, o movimento reduz a dependência de sublicenças onerosas e pavimenta um possível serviço próprio de vídeo sob demanda, cenário que lembra a tática da Paramount ao resgatar Avatar para o box de colecionador citado neste artigo.
Nostalgia como capital para financiar a era pós-Ash
Em 2023, o estúdio apostou em protagonistas novos e em animação com toque de shonen moderno — estratégia semelhante ao que a MAPPA fez com Jujutsu Kaisen. A diferença é que Pokémon não tem só a audiência semanal em jogo: precisa sustentar as vendas anuais de games, cartas e pelúcias que somam US$ 8 bilhões. Quando o risco de rejeição cresce, recorrer ao passado vira colchão financeiro imediato.
Os cálculos internos preveem que metade dos compradores da coletânea terá menos de 30 anos — ou seja, fãs que não viram o primeiro filme no cinema. Esse público, hoje exposto a sagas adultas como o sombrio arco de Itachi em Naruto, tende a receber a caixa como troféu de cultura pop, não apenas como material infantil. A empresa mira nesse colecionismo híbrido: nostalgia de quem cresceu com Ash e fetiche de mídia física em tempos de catálogos voláteis.
O que muda para o fã brasileiro
- A previsão inicial é de lançamento simultâneo em Blu-ray e download para a América Latina no segundo semestre de 2025.
- As dublagens clássicas dos anos 2000 foram restauradas em 4K, incluindo a canção “A Lenda do Trovão”, que nunca teve versão HD oficial.
- As distribuidoras locais poderão negociar exibições limitadas em cinema — prática já testada com sucesso por Demon Slayer em 2021.
Nos bastidores, a Pokémon Company avalia estender a mesma lógica aos especiais de TV e às temporadas clássicas; se der certo, a franquia chegará unificada aos 30 anos de existência, em 2027, sem depender de terceiros para rentabilizar seu passado dourado. Para o fã, além do alívio de finalmente ter tudo num só pacote, fica a sensação de que o adeus a Ash foi menos um ponto final e mais um convite para comprar ingressos — de novo — para a viagem que começou em 1997.

