Nem traje novo nem raios de calor: a grande ruptura que James Gunn prepara para “Superman” é narrativa. Pela primeira vez desde 1978, um longa do herói não começará com o “primeiro voo” nem girará em torno de Lex Luthor, mas sim de um Clark já integrado a um planeta que aprendeu a conviver com seres super-poderosos.
O diretor sabe que mexer na bússola dramatúrgica do personagem muda mais que a trama; bagunça as bússolas de todo o novo DCU. E é precisamente aí que ele aposta: largar a fórmula cristalizada ao longo de cinco décadas para costurar sua fase inaugural como um seriado cinematográfico contínuo, um passo além do que Marvel faz desde 2008.
Gunn liquida a tríade “origem-Lex-isolamento” inaugurada em 1978
De Richard Donner a Zack Snyder, a equação que sustentou o Superman no cinema repetiu três etapas: origem traumática em Krypton, duelo cerebral com Lex Luthor e jornada de aceitação do alienígena solitário. Gunn arremessa o tripé pela janela. Seu roteiro começa com Clark veterano no Planeta Diário e, segundo apuração dentro da DC Studios, coloca Brainiac como ameaça inicial — escolha que retira Lex da linha de frente e evita o desgaste de vilões reciclados.
O movimento também mira no tom. Adeus paralelos religiosos e peso messiânico; entra o repórter curioso, espirituoso, que lida com conflitos cósmicos enquanto paga aluguel em Metrópolis. Essa guinada foi sinalizada quando Gunn, após a fusão Warner-Skydance, reafirmou a autonomia do novo DCU, explicando que prefere “um herói otimista em um mundo estranho” a “um salvador trágico em um mundo cinza”.
Sinergia com Lanternas e Batman expõe plano serializado do DCU
No papel, Clark não enfrenta Brainiac sozinho. O roteiro incorpora Jordan e Stewart, investigando anomalias que deságuam na Terra — cruzamento que prepara terreno para “Lanterns”, já motivo de tensão nos bastidores por sua falha de comunicação com “Superman 2”. A aposta coloca o Homem de Aço como elo de um tabuleiro maior em vez de peça isolada.
Outro indício da engrenagem seriada veio com a escalação de Sinestro, confirmada antes mesmo da estreia de Brainiac. O vilão amarelo dá as caras primeiro em “Creature Commandos”, como revelado em reportagem exclusiva, e ressurge no segundo filme do Superman, sinalizando roteiro contínuo e não capítulos estanques.
A costura alcança Gotham: o projeto de filme centrado em vilão do Batman mudou de título para refletir ligações diretas com eventos de Metrópolis, reforçando a tática de amarrar personagens antes de apresentá-los em massa. A decisão encaixa-se na “regra dos dois vilões” que ronda a franquia do Cavaleiro das Trevas, mas agora serve para espelhar conflitos do Superman.
Por que isso muda a régua de expectativa do público
A repetição de arco vinha cansando público e crítica: “Homem de Aço” dividiu opiniões, e o retorno de Luthor em “Batman v Superman” soou precoce. Gunn percebeu que o desgaste não era do herói, mas do método. Ao saltar a etapa da descoberta e inserir Clark num mosaico de heróis, ele habilita dilemas mais frescos: como manter esperança quando já há dezenas de vigilantes com códigos morais distintos?
Esse giro também corrige um vácuo comercial. Enquanto Marvel consolidou sagas interligadas, o Superman passou 17 anos sem sequência direta e 10 sem filme solo. Transformar o personagem no pilar de uma narrativa seriada é aposta que visa tanto engajamento contínuo quanto bilheteria escalonada, amarrando a audiência a capítulos sucessivos.
Resta saber se o público abraçará um Clark já em pleno voo. Caso a resposta seja positiva, Gunn não apenas revigora um ícone cultural; ele estabelece o exemplo interno de como a DC pode abandonar o hábito de recomeçar do zero a cada crise criativa. Se falhar, terá ao menos testado, com coragem, o que meio século de cinema evitou questionar.

