Pokémon caiu pela primeira vez para fora do top 3 em um ranking oficial de popularidade no Japão e abriu espaço para um fenômeno recente: “Frieren: Beyond Journey’s End” saltou do status de queridinho de nicho para a posição de anime mais amado de 2026 entre os telespectadores locais. O dado, liberado nesta terça-feira pelo instituto Chararank, mexe com décadas de hierarquia estável — e acende alerta em um mercado que já faturou US$ 25 bi no último ano fiscal.
O novo pódio sinaliza mais que uma troca de medalhas: ele confirma a força das plataformas de streaming, que passaram a compor 40% da amostra pesquisada. Séries nascidas na TV aberta perderam terreno para títulos que ganharam tração primeiro no digital, um realinhamento que pode redesenhar contratos de licenciamento e a disputa por horários nobres em 2027.
Método muda e abala a zona de conforto das franquias clássicas
Diferentemente de levantamentos anteriores, o Chararank combinou audiência de TV, tempo de maratona em streaming e engajamento social medido por menções únicas em 72 h após exibição. Esse tripé — TV, VOD e buzz — deu vantagem às produções que vivem de clímax semanais e cliffhangers agressivos. Pokémon, amarrado a um formato episódico pensado para reprises infantis, perdeu pontos justamente nessa métrica de repercussão imediata.
O reflexo se vê no recorte etário: entre 15 e 24 anos, 68% citaram ter descoberto o anime favorito no streaming, versus 41% em 2022. É o mesmo grupo que impulsionou “Jujutsu Kaisen” e “Blue Lock” às posições quatro e cinco, respectivamente, e que já abraçou bombas de hype como o futuro indie “cozy” festejado pela Sony para o PS5.
Subidas relâmpago, quedas bruscas e a conta que chega aos estúdios
O top 10 deste ano traz cinco títulos lançados depois de 2023, número inédito na série histórica da pesquisa. Fora o primeiro lugar de “Frieren”, a surpresa ficou com “Oshi no Ko”, vice-campeão impulsionado por dublagens simultâneas em oito idiomas e pelo marketing viral no TikTok japonês. O empurrão fez a produção ultrapassar gigantes como “Demon Slayer”, hoje terceira colocada, e consolidou o modelo de estreia global — justamente a estratégia que a Crunchyroll reforçou ao lançar a dublagem em inglês de Dragon Ball Super.
Do lado das quedas, “One Piece” perdeu duas posições mas segue entre os dez primeiros graças ao arco Egghead, enquanto “Detective Conan” saiu do top 20 pela primeira vez desde 2005. Produtores já contabilizam o impacto: contratos de licenciamento para brinquedos sofrerão reajuste automático porque várias redes de lojas japonesas indexam pedidos ao índice Chararank. Em nota obtida pela reportagem, um executivo da Bandai revelou que linhas ligadas a Pokémon receberão 12% menos espaço de prateleira no segundo semestre.
O ranking que ninguém esperava
- 1º – Frieren: Beyond Journey’s End
- 2º – Oshi no Ko
- 3º – Demon Slayer
- 4º – Jujutsu Kaisen
- 5º – Blue Lock
- 6º – One Piece
- 7º – Chainsaw Man
- 8º – Spy x Family
- 9º – My Hero Academia
- 10º – Pokémon
O efeito dominó vai além da prateleira física. Plataformas já revisitam algoritmos de recomendação para empurrar “Frieren” e “Oshi no Ko” a novos assinantes, enquanto agências de licenciamento buscam contratos de curta duração, preparados para outra guinada repentina. Num ecossistema acelerado, ficar de fora do pódio deixou de ser apenas um golpe no ego das franquias veteranas: virou sinônimo de perda imediata de visibilidade — e de dinheiro.

