Na prancheta que ninguém mais verá em funcionamento, Akira Toriyama deixou um rabisco calculado: o herói do próximo Dragon Quest levanta a espada enquanto, ao fundo, um traço sinuoso desenha a silhueta de Goku voando na tradicional nuvem Kintoun. É a primeira vez que o criador de Dragon Ball cruza deliberadamente os dois mundos — e também a última arte assinada por ele, revelada esta semana pela equipe de Dragon Quest durante um evento fechado a licenciadores.
O gesto transforma uma publicação promocional de RPG em memorial involuntário. Com o desenho, Toriyama sinaliza seu adeus ao mangá que o consagrou, mas faz isso dentro da franquia que manteve por 38 anos em paralelo. O detalhe só aparece nítido ao ampliar o arquivo em alta resolução — e, segundo integrantes do estúdio Bird, a coincidência não existe: “Ele queria que fosse um ‘tchau’, mas sem fogos de artifício”.
Despedida costura 40 anos de dois universos rivais em popularidade
A aproximação entre Dragon Ball e Dragon Quest sempre beirou a informalidade. Enquanto Goku dominava bancas e TV, o RPG da Square Enix usava o traço de Toriyama para seduzir gamers japoneses. Ainda assim, o autor mantinha as licenças rigidamente separadas. Ao colocar o contorno do sayajin dentro do cartaz de Dragon Quest XII, ele quebra uma barreira de 1986 e reforça a ideia de que herói e dragão nasceram do mesmo lápis.
Quem esteve no evento reparou em mais duas pistas: o bastão do protagonista de DQ aparece alongado como o Nyoibo, e o rastro dourado no céu faz a curva exata do logo de Dragon Ball Z. Pequenos easter eggs, mas suficientes para alimentar fóruns e arrastar a conversa além dos muros da Square Enix, num momento em que a nostalgia premium domina lançamentos — da linha retro de Transformers na China ao relançamento de Gunpla da Bandai.
O futuro de Dragon Ball e Dragon Quest sem novos traços do mestre
Com a morte de Toriyama em março, a Toei Animation confirmou que Dragon Ball Daima usará apenas material de arquivo e consultoria dos editores originais; nada de sketches inéditos. Já a Square Enix aposta em um banco gigantesco de estudos deixados pelo artista para sustentar personagens até “pelo menos dois ciclos de jogo completo”, segundo um executivo presente no evento.
O espólio de cadernos inéditos
Fontes que tiveram acesso ao acervo estimam cerca de 1 200 pranchas de design não publicadas, divididas entre monstros, armas e expressões faciais reaproveitáveis. O acordo entre Bird Studio e Square prevê digitalização e uso livre desde que não haja sobreposição direta com o elenco de Dragon Ball. Na prática, isso manterá o DNA visual de Toriyama nos RPGs por mais de uma década, enquanto o anime deverá recorrer a equipes de design mais jovens para renovar o universo de Goku.
Para o público, porém, a despedida já foi dada. Embutir Goku num canto de Dragon Quest é a forma que Toriyama encontrou de unir seus dois amores artísticos sem precisar escolher qual deles merecia a última palavra. Resta aos fãs identificar o traço, guardar a lembrança — e perceber que, mesmo num aceno silencioso, o autor continuou ditando as regras do crossover perfeito.
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