Sem trailers novos, sem data de gameplay e agora sem janela de lançamento: o estúdio Khara confirmou que Evangelion: Cross Reflections, projeto que uniria narrativa interativa e animação inédita, foi empurrado para algum ponto de 2027. É o atraso mais longo já anunciado para a franquia desde a saga de remakes no cinema.
A notícia não só frustra uma base de fãs acostumada a hiatos, como acende o farol vermelho sobre a maratona de cross-media que transformou Evangelion em brinquedo, perfume, relógio e até anúncio de seguro de carro. Até onde esse elástico aguenta antes de romper?
A sobrecarga criativa que nem o próprio Anno resolve
Cross Reflections nasceu em 2021, quando a Khara e a publisher Natsume Atari prometeram “uma experiência de realidade híbrida que expande o quarto impacto”. Nos bastidores, o plano era capitalizar o fim da tetralogia Rebuild sem precisar filmar outro longa. Mas o escopo cresceu: VR, trilha original de Shiro Sagisu, participação de animadores freelancers ― e o pipeline ficou parecido com o dos estúdios que hoje sofrem com o calendário exausto de Attack on Titan.
Segundo integrantes de equipes terceirizadas ouvidos pelo portal, o cronograma original de 24 meses dobraria só para compatibilizar motores gráficos com os arquivos de animação 2D em 8K. É o tipo de gargalo que o criador Hideaki Anno, atualmente envolvido com a série tokusatsu Shin Kamen Rider, não teria como destravar a curto prazo. Resultado: o anúncio oficial cita “revisão de pipeline” e “proteção da saúde das equipes” ― a mesma cartilha que virou padrão nas justificativas de adiamentos pós-pandemia.
Quando o merchandising vence o próprio produto
O detalhe que passou despercebido no comunicado é que parte das licenças de Cross Reflections já está contratada para 2025: action figures, DLCs em jogos de celular e até um collab com rede de cafés em Tóquio. Representantes de marketing, em condição de anonimato, calculam multas de rescisão na casa de US$ 8 milhões caso o material físico não esteja pronto até lá. Ou seja, o game/filme/experiência pode chegar depois dos brinquedos que deveriam divulgá-lo.
Esse descasamento lembra o que ocorreu com One Piece Film Red, cujos baldes de pipoca saíram antes de o longa chegar a certos mercados, fenômeno que se repetiu no recente boom dos brindes Hello Kitty nos cinemas americanos. A diferença é que Evangelion não tem um fluxo anual de novos arcos televisivos para manter o interesse girando. O temor interno é de que uma espera até 2027 afogue o buzz definitivo e transforme Cross Reflections num esforço defensivo, feito apenas para não perder contratos.
Enquanto isso, o fandom debate se o adiamento é sinal de aperfeiçoamento ou mais um sintoma de que Evangelion virou refém da própria escala. Para uma franquia cuja alma sempre foi a angústia do piloto adolescente, a nova demora parece ironicamente adulta: prazos, planilhas e a dura conta de tentar reinventar o apocalipse pela enésima vez.

