O anúncio de mais uma série de Dragon Ball conseguiria passar despercebido, não fosse um detalhe: a Bandai colocou quatro transformações diferentes de Goku no mesmo lançamento, obrigando o colecionador a decidir entre pagar uma vez ou quatro pelo mesmo herói. É a aposta mais agressiva da empresa desde que o mercado de action figures entrou em sobreaquecimento pós-pandemia.
A jogada espreme a nostalgia até o último centavo, recriando desde o garoto de cauda em Dragon Ball clássico até o instinto superior de Super. A estratégia embala num único produto 40 anos de memória afetiva e testa um dilema: o fã topa repetir personagem infinitamente se cada forma trouxer um gatilho emocional distinto?
Uma embalagem, quatro transformações e o truque da “linha contínua”
O kit chega à rede de varejo japonesa em agosto, mas a pré-venda já começou em sites internacionais por cifras que flertam com os R$ 800 por peça. Cada caixa entrega um Goku em escala 1:12, com moldes inéditos de cabelos, feições e, claro, mãos intercambiáveis para o Kamehameha. Só que o segredo está no rótulo: a Bandai não chama o produto de “coleção comemorativa”, e sim de “linha contínua”. Ou seja, qualquer forma futura — Super Saiyajin 3, Deus Azul, GT adolescente — pode entrar na mesma sequência sem recomeçar a numeração.
Isso cria uma pressão psicológica no consumidor: quem perder o primeiro wave corre o risco de enfrentar o temido “preço de reposição” no mercado secundário. Segundo lojistas de Akihabara, pré-vias de estoque esgotaram em 43 minutos, tempo menor que o registrado na última leva dos kits premium de Transformers cancelados pela Hasbro. A Bandai percebeu o recado: existe demanda para repetir Goku quantas vezes forem necessárias, desde que a variação pareça canônica.
Por que repetir Goku ainda dá lucro em 2024
Enquanto a Toei mantém Dragon Ball Super em hiato animado, a franquia encontra no licenciamento o principal motor de receita. Um relatório interno vazado do grupo IG Port coloca Dragon Ball no topo das marcas japonesas que mais faturaram com brinquedos fora da Ásia no último ano fiscal, superando Pokémon e One Piece. O segredo está justamente em Goku: ele representa sozinho 61 % das vendas de itens da série.
Ao empilhar formas diferentes, a Bandai dribla o desgaste da imagem de um protagonista que, dentro da narrativa, já não é necessariamente o mais forte — basta lembrar que pelo menos sete personagens superam Goku e Vegeta no cânone atual. Isso não importa na prateleira: cada transição capilar vira um avatar de épocas, gerando senso de completismo. E completismo, no mercado de nicho, vale mais que inovação.
Disputa por centímetros na estante explica o timing da jogada
O lançamento chega num momento em que outras gigantes, como Good Smile e Kotobukiya, ampliam linhas baseadas em jogos gacha e animes recentes. Cada centímetro da estante do colecionador virou território estratégico. Ao oferecer quatro figuras “obrigatórias” de uma só vez, a Bandai ocupa espaço físico e orçamentário que poderia ir para um rival emergente.
Se a tática der certo, a marca deve repetir a fórmula com Vegeta no próximo trimestre — informação obtida junto a distribuidores europeus. Até lá, o desafio será convencer o fã que já tem meia dúzia de Gokus em casa de que ainda falta um: justamente aquele que relembra o primeiro Torneio de Artes Marciais ou o instante em que Broly saiu do controle. O passado, afinal, continua rendendo melhor que qualquer saga futura.

