Uma conversa que deveria girar apenas em torno de notas musicais terminou em pitch de personagens. Ao revelar os bastidores da trilha de X-Men ‘97, Andy Grush e Taylor Stewart admitiram que já enviaram à equipe de roteiro uma “wishlist” de mutantes para a terceira temporada — antes mesmo de concluírem a mixagem do segundo ano.
Por que isso importa? Porque, longe de ser folclore de estúdio, a pressão dos compositores indica que a Marvel Animation abriu uma brecha inesperada: quem controla o som pode, de fato, influenciar o rumo da narrativa em um momento em que a empresa repensa sua estratégia de lançamentos.
Trilha sonora virou motor de narrativa em X-Men ‘97
Grush e Stewart contam que o maior desafio no segundo ano foi “elevar sem trair”: recriar o sintetizador rasgado dos anos 90, mas cruzá-lo com orquestra de 70 músicos, gravada em Budapeste, para cenas que escalam do drama escolar a batalhas cósmicas. A escolha exigiu quase o dobro do orçamento de áudio da temporada inicial e fez o estúdio redesenhar prazos de animação para encaixar picos de cadência já prontos na trilha.
O efeito colateral apareceu na edição: diretores começaram a pedir “barulhos que antecipem vilões” antes mesmo de animar as entradas. Foi aí que os compositores perceberam poder inédito. “Se sugerirmos um tema sombrio de três notas, eles consideram usar o personagem”, resumiu um produtor presente na sessão de spotting. A prática ecoa o modelo que a Marvel ensaia em live-action, como se viu com a virada sombria de Wanda no MCU, mas aqui surge sem a burocracia de um universo compartilhado gigante.
Compositores querem empurrar Magneto Noir e Fênix Branca
Na “wishlist” entregue à sala de roteiristas, saltam dois pedidos: uma versão Noir de Magneto, inspirada nas HQs dos anos 2000, e a encarnação Fênix Branca, estágio seldom explorado fora das páginas. Ambos foram escolhidos, segundo Grush, porque permitem contrastes musicais extremos — do jazz dissonante ao coral etéreo — que a dupla já rascunhou.
A lista traz ainda Blink da realidade Exiles, Forge em arco solo de paranoia tecnológica e o inesperado Demolidor, cuja aparição reforçaria o “street-verse” que Daredevil: Born Again consolida no streaming. Nenhum nome foi confirmado, mas fontes do departamento de pós-produção admitem que dois temas foram aprovados “para uso futuro” — e a política da casa proíbe reservar música para personagens que não aparecerão.
O que isso revela sobre os planos da Marvel Animation
A ala televisiva da Marvel vive hoje entre dois fogos: a matriz quer menos lançamentos, mas precisa manter a conversa sobre X-Men acesa até a chegada dos mutantes ao cinema. Permitir que a trilha sonora funcione como laboratório é um atalho barato: custa poucas sessões de estúdio e mede, nas redes, o apetite do público. Se o buzz em torno do “tema da Fênix Branca” explodir quando aparecer em trailer, por exemplo, o roteiro encontra motivação política para promover o arco inteiro.
Na prática, Grush e Stewart viraram scouts criativos — uma inversão da cadeia de comando que define o futuro da animação. E, enquanto eles afinam cordas e sintetizadores, a Marvel coleta dados preciosos sobre quais encarnações mutantes carregarão a franquia para além de 2026, ano previsto para a possível estreia cinematográfica dos X-Men. Não é exagero dizer: o próximo grande personagem do estúdio pode nascer primeiro no fone de ouvido.

