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Virada sombria de Wanda irritou fãs, mas salvou a Saga do Multiverso da Marvel

A cena em que Agatha Harkness revela que “Scarlet Witch não é um apelido, é uma lenda” quebrou o feed de reclamações no mesmo minuto. Para parte do público, o discurso enxotava o luto íntimo de WandaVision e pintava Wanda Maximoff como arma nuclear pronta para explodir no próximo crossover. Dois anos e uma carnificina multiversal depois, o tão contestado retcon virou o trunfo narrativo que mantém a Fase 4 respirando enquanto a bilheteria oscila.

Ao transformar poder concedido pela Joia da Mente em direito de nascença — respaldado por profecia e livro proibido —, a Marvel trocou o realismo traumático pela fantasia sombria. Na prática, abriu a porteira para vilões imprevisíveis, reescreveu a baliza moral do MCU e injetou urgência em uma saga acusada de falta de stakes. É por isso que, quando Strange fecha o portal no fim de Multiverse of Madness, o espectador sabe: ninguém ali voltará ileso.

Um retcon que rompeu com a lógica “herói em luto”

Até 2021, Wanda era apresentada como a vingadora que perdeu tudo — família, sotaque, Visão — e seguiu em frente. O salto de WandaVision adiciona duas camadas inéditas: 1) o caos mágico já habitava a heroína desde a infância em Sokovia, 2) existe uma entidade mitológica que toma o mesmo nome. A primeira derruba a dependência narrativa das Joias do Infinito, encerrando de vez o cordão umbilical com a Saga do Infinito; a segunda legitima Wanda como ameaça global, não como caso clínico.

A mudança irritou fãs que queriam ver o desfecho terapêutico da série virar redenção pura. Só que esse arco “boas intenções x consequências catastróficas” virou linha-mestra da fase atual. É o mesmo dilema que atravessa Peter Parker ao receber variantes em pistas de Miles Morales ou T’Challa ao ter sua sucessão reaberta em Wakanda. O universo que sobreviveu às Joias agora morre de medo de si mesmo.

Sem Wanda profética, a Saga do Multiverso viraria burocracia

Colocar a Feiticeira Escarlate no centro de uma profecia mexe com três placas tectônicas do MCU. A primeira é industrial: ipso facto, o estúdio garante uma antagonista de peso sem precisar importar Kang a cada esquina, algo útil em ano de incertezas jurídicas sobre o vilão. A segunda é criativa: ao abrir a cartilha de bruxaria, a Marvel prepara terreno para Agatha: Darkhold Diaries e para mutantes místicos como Magia, que podem dar fôlego ao promissor reboot dos X-Men — tema que já agitou a escolha do novo Ciclope. A terceira é emocional: quando uma ex-vingadora massacra Illuminatis inteiros, qualquer aliança futura parece instável.

Sem essa virada sombria, a Saga do Multiverso corria o risco de repetir o desenho de fases anteriores, onde ameaça externa une heróis internos numa luta cartesiana. Com Wanda, a ruptura parte de dentro; é o próprio multiverso que tenta se suicidar pela dor de uma pessoa. Esse grau de intimidade no caos faz o espectador aceitar regras loucas de realidades espelhadas sem pedir manual de instruções.

O detalhe que passou despercebido: mutação embrionária

Em meio a feitiços vermelhos e runas tonais, um quadro rápido mostra Wanda criança fazendo o brinquedo explodir antes da bomba Stark. A fala de Agatha resume: “um feitiço de probabilidade inato”. Na HQ, isso é mutação pura. Se a Marvel decidir que ela já nasceu mutante, a ponte narrativa para a entrada dos X-Men está montada sem precisar de radiação, tóxico ou céu roxo. É a diferença entre apresentar “novo gene” e provar que ele sempre esteve ali.

Nada garante que a personagem volte em carne e osso depois do colapso no Monte Wundagore. Mas, se retornar, trará consigo a licença para ciclos de queda e redenção que fazem falta a personagens muito protegidos. A Marvel precisa de incerteza; Wanda entregou a mais valiosa de todas: o perigo que fala com a voz de quem você ainda ama.

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