O macacão de captura de movimento ainda estava cheio de marcadores quando a lente de um fã flagrou, no canto da cena, uma placa luminosa: “Siegel Ave – Downtown Metropolis”. Bastou um nome de rua para revelar que Gorilla Grodd, tradicional nêmesis do Flash, acaba de ganhar endereço fixo na cidade do Superman no novo DCU de James Gunn.
A mudança de CEP não é mero capricho de roteiro. Nos bastidores, a produção usa o telefilme “The People v. Gorilla Grodd”, já em filmagem em Atlanta, como laboratório para apresentar vilões que, em seguida, migrarão para “Superman: Legacy”. A aposta inverte a lógica clássica da DC, que costuma emprestar antagonistas do Homem de Aço a heróis menores; agora, é Metrópolis que importa Grodd – e o detalhe passa batido para quem só olha a foto pelo gorila digital.
Metropolis nos mínimos detalhes entrega o crossover antes da hora
O lixeiro cenográfico marcado com o selo da LexCorp aparece em três tomadas externas — duas delas à porta do tribunal onde Grodd será julgado pelo massacre de Central City. Segundo técnicos presentes na gravação, a decisão de estampar a marca de Lex Luthor veio de James Gunn após revisão de storyboard, na tentativa de “amarrar tudo ao ecossistema de Superman: Legacy”.
Outro easter egg crucial é a faixa de protesto erguida por figurantes: “Not in our zoo, Lex!”. Na prática, o movimento indica que o gorila superinteligente teria sido capturado em um laboratório financiado por Luthor, e não pela S.T.A.R. Labs, como nas HQs. O ajuste reposiciona Grodd como resultado direto da ambição corporativa que o novo Clark Kent enfrentará. É a mesma estratégia que já havia sido apontada no julgamento do personagem, explorada em detalhes pela matéria que mostrou Grodd como trampolim para novos vilões do Flash.
Por que Gunn escolheu Grodd para batizar o território do novo Superman
No cronograma oficial, “Superman: Legacy” só chega aos cinemas em 2025, enquanto o telefilme de Grodd deve estrear na Max no fim de 2024. Trazer o vilão do Flash primeiro aponta para dois objetivos editoriais. O primeiro é testar, em streaming, a recepção do público a criaturas em CGI pesado — orçamento que Gunn precisará dominar em Legacy sem repetir polêmicas de “Liga da Justiça”.
O segundo é estratégico: ao atrelar Grodd a LexCorp, Gunn já oferece ao espectador um vilão que encarna temas caros ao Superman moderno, como biotecnologia e ética animal, antes mesmo de apresentar Luthor em pessoa. É um prelúdio dramático que remete à forma como o diretor costurou o Peacemaker antes de “O Esquadrão Suicida”.
As peças que faltam para o quebra-cabeça de “Superman: Legacy”
Fontes da Warner mencionam uma sequência pós-créditos em que Grodd escapa, auxiliado por um “beneficiário invisível”. Fãs especulam que seja Brainiac, mas há pista melhor nas fotos: uma van da Cadmus estacionada ao lado do tribunal. A presença do laboratório, cujos experimentos originaram a clonagem de Hal Jordan em “Lanterns” — tema exposto no furo sobre o clone do Lanterna Verde — sugere que Gunn prepara a Cadmus como cola oficial do DCU, conectando ciência obscura, vilões e metahumanos.
Mesmo que o público só enxergue um gorila gigante no primeiro trailer, a engrenagem já gira. O que a placa “Siegel Ave” escancara é simples: cada quarteirão de Metrópolis será introduzido em pílulas espalhadas por produções menores, para que “Legacy” comece num universo que o espectador já decifrou de forma quase subliminar. Se der certo, o DCU estreia com corpo vivo; se falhar, será apenas um macaco fora de lugar tentando descer a mão no herói errado.

