O set de Sailor Moon que mobilizou 10 mil fãs no programa LEGO Ideas foi jogado na Lua antes mesmo de ver a luz do dia. Na mesma tacada, outros 67 projetos sofreram veto definitivo, selando a maior leva de reprovações da história recente da plataforma colaborativa da marca dinamarquesa.
Não é apenas uma recusa: o corte passa recibo de que a LEGO fecha a porta, por ora, a franquias de anime — justamente quando nostalgia de desenhos dos anos 90 vira ouro no mercado, como mostram peças premium de Dragon Ball Z e a ofensiva da Bandai com G Gundam aos 30 anos. Por que a gigante dos tijolinhos hesita enquanto rivais menores faturam?
Recorde de vetos sinaliza nova política de risco zero
O Ideas costuma aprovar entre um e quatro sets por revisão semestral. Desta vez, 71 projetos passaram ao crivo final e apenas um — o diorama de O Estranho Mundo de Jack — escapou da guilhotina, segundo anúncio oficial. O índice de rejeição bateu 95%, puxado por propostas com IPs “sensíveis” para negociações internacionais, categoria na qual Sailor Moon se encaixa.
Executivos da LEGO não detalharam razões, mas designers internos mencionam, em blogs corporativos, “complexidades de licenciamento multirregional”. Traduzindo: cada território de Sailor Moon pertence a um emaranhado de empresas — Toei, Naoko Takeuchi, Kodansha — o que pode exigir contratos tri ou quadripartites. A dinamarquesa prefere investir energia onde detém caminho jurídico pré-pavimentado, caso de Disney, Star Wars e Minecraft.
Enquanto LEGO recua, concorrência menor avança no nicho otaku
A vacância abriu brecha para blocos alternativos surfarem o hype. A japonesa Kawada lança versões de One Piece em Nanoblock desde 2020 sem resistência, e a Mattel flerta com kits de construção Mega para Pokémon. No mercado cinza, criadores independentes inundam marketplaces com réplicas não licenciadas de Sailor Moon, impulsionados pela fome dos colecionadores — sintoma do mesmo fenômeno que sustentou sites piratas antes da queda fantasma do AnimeFLV.
Para lojistas brasileiros, a decisão da LEGO soa contraditória. “Vendemos em dois meses todo o lote de Optimus Prime dark”, relata um distribuidor que também comercializa estátuas como a do Golpe do Dragão em Dragon Ball Z. “Se tivesse Sailor Moon oficial em tijolos, triplicaríamos o pedido”. O apetite se confirma nos grupos de Facebook: postagens sobre o set rejeitado somaram mais de 350 mil interações em 48 horas.
Detalhe pouco notado: veto afeta futuros designers da própria LEGO
Além do baque emocional nos fãs, a rejeição em massa freia a porta de entrada para novos talentos. Muitos colaboradores do Ideas acabam contratados pela empresa, caso de Marcos Bessa, designer português que assinou o icônico Modular Avengers Tower. Com 68 projetos riscados de uma vez, reduz-se o funil de profissionais que trazem frescor de nichos como o anime, algo que outras divisões da cultura pop já consideram vital.
No fim, a LEGO se mantém confortável no topo, mas o movimento revela uma fratura: a companhia temeu um campo que se prova lucrativo em colecionáveis, streaming — vide o atraso estratégico de Demon Slayer em Castelo Infinito — e periféricos gamer, como os keycaps Hello Kitty da Razer. Enquanto a rainha Serena aguarda uma segunda chance, outras marcas constroem, peça a peça, a ponte entre tijolos e anime. A pergunta que resta é quanto tempo a LEGO levará para perceber que deixar de brincar nesse tabuleiro custa mais caro do que bater o martelo em um set licenciado.
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