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Bloqueio relâmpago de 49 sites piratas revela nova tática de Netflix e Disney contra a fadiga do streaming

Sem alarde, a aliança de gigantes do entretenimento encabeçada por Netflix e Disney protocolou nas últimas 72 horas um pacote de ações que pede o bloqueio imediato de 49 domínios, incluindo o veterano 123Movies e o ascendente Miruro. O movimento mira principalmente serviços que se autointitulam “Netflix grátis” e concentram, juntos, mais de 700 milhões de visitas mensais — volume que, acredite, supera a audiência de vários streamings pagos somados.

O detalhe que escapa a quem vê apenas o calor da manchete: desta vez os estúdios não estão falando primeiro com juízes, mas com provedores, gatekeepers de anúncios e processadores de pagamento. A ordem é secar a torneira financeira e logística dos piratas antes mesmo de a liminar sair. A estratégia, importada da Ásia, deve provocar bloqueios em cascata no Brasil ainda neste semestre, segundo fontes próximas às operadoras que já receberam notificações.

Estúdios atacam infraestruturas críticas e não só o endereço .com

Em vez de brigar domínio por domínio, a Alliance for Creativity and Entertainment (ACE) passou a solicitar dados diretamente à Cloudflare, Namecheap e a processadoras de cripto que fazem a ponte de doações e anúncios. O objetivo é identificar a pessoa física por trás dos servidores e cortar o faturamento — estimado em US$ 18 milhões anuais só no ecossistema do 123Movies, de acordo com levantamentos internos da aliança.

Fontes na indústria publicitária confirmam o envio de cartas de cessação a pelo menos três redes que veiculam banners em sites piratas no Brasil. Se o bloqueio financeiro vingar, acaba a fatia mais rentável da pirataria: anúncios de apps de apostas e falsos antivírus, hoje responsáveis por até 60 % da receita desses portais.

A manobra também atinge os próprios fãs que bancam os custos de servidor via Pix ou carteiras cripto. Nos fóruns em que os administradores de Miruro recrutam voluntários, já circula alerta para “guardar fundos fora de exchanges mainstream”, sinal de que os operadores pressentem congelamentos.

Brasil no radar: da rota de tráfego ao risco de DNS estatal

O 123Movies lidera o streaming clandestino no país, com 42 % do tráfego originado de IPs brasileiros em março, segundo dados de SimilarWeb. Miruro, voltado a animes, registra picos durante lançamentos semanais de Jujutsu Kaisen — reflexo direto da disputa de licenças que tirou clássicos como Hunter x Hunter da Netflix e espalhou títulos por cinco plataformas pagas diferentes.

Operadoras consultadas admitem que já testam bloqueios de DNS preventivos, modelo parecido com o aplicado em sites de apostas esportivas. O temor é repetir o efeito “cobertor curto”: cada URL derrubada gera novos espelhos em horas, demanda que consome recursos técnicos e vira munição política para quem defende filtros mais duros, como o proposto no Senado em 2022.

Anatel e CGI.br acompanham o caso porque o Brasil costuma adotar ordens estrangeiras quando envolvem gigantes de conteúdo, sobretudo se a Justiça local enxerga risco à arrecadação fiscal. Nos bastidores, a agência discute exigir transparência das operadoras sobre quantos domínios são efetivamente bloqueados, tentando evitar o buraco negro que engoliu dados de bloqueios antipirataria feitos durante a Copa de 2022.

Fragmentação impulsiona pirataria e acende alerta de efeito rebote

Ao bater nos piratas com mais força, Netflix e Disney miram os tais “gratistas”, público que assiste ocasionalmente e converte rápido se o acesso ilegal ficar incômodo. O problema é que a própria inflação de streamings continua a empurrar usuários para fora do circuito oficial. Basta lembrar que o brasileiro precisaria hoje de ao menos cinco assinaturas simultâneas para acompanhar as estreias de anime, como mostrou o ranking de sagas de One Piece que virou munição de streaming.

Executivos ouvidos reservadamente reconhecem o dilema: “quanto mais partimos os catálogos, mais a pirataria se reinventa”. A nova tática de estrangular infraestrutura ganha pontos por ser rápida, mas não responde à raiz do problema: catálogo, preço e usabilidade. Se esse tripé não evoluir, o bloqueio de 49 sites pode virar só o primeiro round de uma luta longa — e cada vez mais cara para todos os lados.

No curto prazo, espere instabilidade ao tentar acessar serviços piratas a partir do Brasil e, sobretudo, ver blitz de carteiras digitais cortando repasses. No médio, a ofensiva deve servir de argumento para fusões ou bundles entre plataformas que já sinalizam fadiga de assinantes. Quando estúdios e consumidores chegarem a um meio-termo, talvez nem Miruro nem 123Movies façam tanta falta quanto parecem hoje.

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