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A Viagem de Chihiro volta às salas 25 anos depois e vira arma secreta contra a fadiga do streaming

Na contramão da maratona solitária na TV, A Viagem de Chihiro voltará a disputar pipoca e poltrona a partir de 18 de julho, em cópia 4K e som Atmos, como se fosse estreia mundial. Não é apenas um mimo comemorativo: redes de cinema brasileiras enxergam no relançamento do filme de Hayao Miyazaki a chance de preencher um calendário esburacado por adiamentos de Hollywood e, de quebra, medir a força comercial do público otaku fora do circuito de pré-estreias eventuais.

O timing é cirúrgico. Depois de O Menino e a Garça faturar o Oscar e levar 500 mil espectadores aos cinemas nacionais — marca rara para animação japonesa —, exibidoras analisam planilhas e percebem que relançar um Ghibli premiado sai mais barato do que importar um blockbuster médio. A jogada ganhou musculatura quando as vendas antecipadas para Chihiro, abertas há dez dias, ultrapassaram a de qualquer filme inédito previsto para a semana da estreia, segundo dados internos compartilhados por distribuidoras.

Reestreia não é nostalgia: é engenharia de programação

Nos bastidores, Chihiro virou estudo de caso por três motivos bem práticos. Primeiro, a cópia 4K já estava pronta — fruto de um acordo global da Ghibli com a Toho, o que elimina custos de restauração. Segundo, a Sato Company, que detém os direitos no Brasil, topou dividir receita de licenciamento em vez de cobrar adiantado, reduzindo risco financeiro das redes. Terceiro: públicos de anime demonstraram um comportamento “pré-Marvel” que os exibidores perderam nos últimos anos, comprando tíquetes com semanas de antecedência.

A conta agrada a CAC Cinemas, grupo que opera 85 telas no interior. A projeção interna é simples: se Chihiro mantiver 60% da taxa de ocupação de O Menino e a Garça em seu segundo fim de semana, já cobrirá os custos físicos de exibição, o que não ocorre com terror ou comédia nacional do mesmo porte. É também um ensaio para agosto, quando outro cultuado clássico, Princesa Mononoke, deve ganhar sessões evento.

Férias vazias e streaming saturado criam janela perfeita

A reestreia chega num buraco de calendário provocado pela greve de roteiristas de 2023, que empurrou continuações aguardadas como Venom 3 para outubro. Entre junho e agosto, apenas Meu Malvado Favorito 4 promete romper a barreira dos cinco milhões de ingressos, e mesmo assim concentra público infantil. As redes não pretendem repetir o trauma de março, quando salas ficaram às moscas após Duna 2.

Enquanto isso, serviços de streaming enfrentam o efeito “prateleira lotada” e removem títulos para cortar custos, como Hunter x Hunter, que saiu da Netflix e evidenciou a volatilidade do catálogo — movimento já analisado em reportagem anterior. Com menos garantias de acesso online, fãs veem valor extra em rever Chihiro numa tela que nenhuma assinatura entrega em casa.

Merchandising limitado coloca fãs em modo corrida

Para potencializar o senso de urgência, a distribuidora disparou apenas 25 mil pôsteres numerados — um por sessão de estreia — e licenciou 5 mil copos colecionáveis. O estoque costuma evaporar nas primeiras sessões, como ocorreu com os chaveiros de One Piece no McLanche Feliz, caso que tensionou a cadeia logística da rede de fast-food no ano passado. Dessa vez, operadores juram ter reforçado a importação para evitar revenda abusiva em marketplaces.

No fim, o que parecia apenas nostalgia de fã hardcore ganhou status de contra-ataque das salas de exibição à dispersão digital. Se Chihiro repetir a façanha japonesa de 2020, quando um re-relançamento liderou o box office pós-pandemia, a equação muda: clássico + evento limitado + brinde vira pacote tão ou mais rentável do que filme inédito de médio orçamento. A reestreia, portanto, serve menos para celebrar 25 anos e mais para testar a próxima década do cinema presencial — e a plateia brasileira, ao que tudo indica, está disposta a participar do experimento.

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