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Scarlett Johansson joga luz na aposta de risco que fez Vingadores: Ultimato funcionar — e expõe a Marvel de hoje

Scarlett Johansson não escolheu palavras suaves: “Ultimato não deveria ter funcionado”. O desabafo, feito num podcast voltado a bastidores de Hollywood, não é falsa modéstia — é confissão de que o capítulo mais lucrativo da Marvel quase desmoronou sob o próprio peso.

Quando a intérprete da Viúva Negra aponta a improbabilidade do sucesso, ela também oferece a chave para entender por que o estúdio patina agora. O mesmo improviso controlado que salvou Vingadores: Ultimato se transformou em gargalo logístico na Fase 5, onde cada filme precisa reescrever o anterior para manter o tabuleiro em pé.

Ultimato sobreviveu ao caos de bastidores e virou bilhete premiado

Nos 18 meses que antecederam a estreia, o longa teve roteiro mutante, sets duplicados e um cronograma que mudava semanalmente. Johansson lembra que o elenco recebia páginas novas na noite anterior às gravações, enquanto a equipe construía simultaneamente três versões da batalha final. O funeral de Tony Stark, por exemplo, foi a primeira cena rodada, antes mesmo da maioria do elenco saber quem morria.

Ao contrário do que o público imagina, explicar viagem no tempo não era prioridade do estúdio. A urgência era sincronizar agendas de 60 atores principais — algo que só funcionou porque Chris Evans aceitou prolongar contrato por oito semanas e Robert Downey Jr. topou refilmar o “Eu sou o Homem de Ferro” quatro meses antes da estreia. Esse jogo de cintura, hoje, esbarra em contratos mais curtos, escalas de streaming e num volume de produções que lota qualquer agenda A-list.

A aposta foi tão alta que o departamento financeiro vetou cenas inteiras até a bilheteria de Guerra Infinita provar que o risco valia bilhões. Só então Kevin Feige liberou a reconstrução digital dos heróis de 2012 e o set aquático onde se filmou a morte da Viúva. O timing cirúrgico rendeu US$ 2,8 bilhões — mas também fixou um padrão impossível de repetir sem o mesmo nível de urgência e camaradagem.

Por que a mágica não se repete na Fase 5 — e Johansson sabe disso

Quando Johansson afirma que “não deveria ter dado certo”, ela sublinha o componente de sorte que falta ao MCU atual. Três pontos desapareceram do tabuleiro:

Os três fatores que sumiram

  • Evento único, não série perpétua: Ultimato encerrou 11 anos de narrativa contínua, enquanto filmes recentes se comportam como episódios soltos de um streaming infinito. A sensação de final de campeonato evaporou.
  • Elenco ancorado emocionalmente: Downey Jr., Evans e Johansson filmaram sabendo que seria a despedida de seus personagens. Hoje, astros entram já negociando spin-offs, caso de Iman Vellani em The Marvels, cuja recepção negativa levou o estúdio a um retcon silencioso — movimento antecipado neste portal em reportagem de janeiro.
  • Risco como cola criativa: Ultimato podia falhar espetacularmente; esse medo gerou coesão. Agora, a proliferação de séries Disney+ dilui responsabilidade. Se um projeto tropeça, como aconteceu com Eternos, a solução é empurrar a correção para o filme seguinte.

O resultado é visível: Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania abriu a Fase 5 prometendo o “novo Thanos”, mas a ameaça Kang precisou ser reescrita três vezes antes das câmeras por causa do processo judicial contra Jonathan Majors. Na outra ponta, a Marvel escala um X-Men já assumidamente gay para o reboot, como apurou nossa coluna sobre o futuro dos mutantes, na tentativa de capturar relevância cultural que compense a falta de um clímax articulado.

Sem a urgência de um encerramento definido, cada filme vira peça de transição. A própria Viúva ganhou um longa solo pós-mortem que pouco alterou o status de Natasha Romanoff no cânone — evidência de que a engrenagem hoje gira mesmo quando não sabe para onde vai. Johansson, que conhece a máquina por dentro, traduziu o sentimento dos bastidores: a fórmula só funcionou porque, ironicamente, não havia fórmula rígida.

No fim, a declaração da atriz é menos nostalgia e mais aviso. Se o estúdio quiser repetir o impacto de Ultimato em Avengers: Secret Wars, precisará devolver ao set o oxigênio criativo que nasce do risco real — o mesmo que transformou um planejamento caótico em um recorde de bilheteria quatro anos atrás. A pergunta é se a Marvel, agora parte estruturante da Disney+, terá coragem (e espaço de agenda) para apostar outra vez.

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