Quando as luzes da New York Comic Con se acenderem em 12 de outubro, o principal holofote de Dragon Ball não vai mirar a próxima série oficial, mas sim uma versão de Goku que o próprio estúdio havia trancado no porão do “não canônico”: o Super Saiyajin 4 de Dragon Ball GT retorna ao mercado norte-americano em uma linha de colecionáveis premium que desembarca já no mesmo mês.
O timing é tudo. DAIMA, produção inédita anunciada pela Toei para 2024, ainda não tem trailer completo nem data definitiva, e vê a nostalgia turbinada de GT ocupar estandes, vitrinas e painéis. A jogada revela mais que um relançamento de boneco; mostra como a Bandai prefere testar o bolso do fã antes de arriscar narrativa nova — lição que outras franquias, de Gundam a Fruits Basket, aprenderam a duras penas.
Nostalgia “fora do cânone” vira combustível de curto prazo
Lançado em 1996 sem envolvimento direto de Akira Toriyama, Dragon Ball GT passou duas décadas no limbo da cronologia oficial. Mesmo assim, o Super Saiyajin 4 — combinação de traços selvagens, cauda e pelagem vermelha — nunca saiu do topo das enquetes de popularidade. A Bandai registrou vendas 27 % maiores em figuras relacionadas a GT nos Estados Unidos entre 2020 e 2022, superando até versões contemporâneas de Super.
O novo lote, produzido pela linha SH Figuarts e limitado a 8 mil unidades iniciais, chega a US$ 90 cada. Fontes da organização da NYCC informam que os estandes dedicados a Dragon Ball dobraram de metragem após o anúncio do SSJ4. Ou seja, para o varejo o “não cânone” vende mais rápido que qualquer teaser de DAIMA — fenômeno parecido com o brilho azul que salvou a GameStop em Solo Leveling.
Calendário apertado deixa DAIMA sem vitrine física
Oficialmente, DAIMA só deve ganhar trailer completo em novembro, fora da temporada de convenções. Sem esse material, a Toei enfrenta a vitrine esvaziada que também atingiu a Crunchyroll antes do novo paywall, como analisamos na matéria sobre a faxina no catálogo físico. O resultado é um vácuo que a divisão de licenciamento preenche com relançamentos — estratégia de baixo risco e lucro imediato.
Internamente, executivos da Bandai calculam que o público americano gaste até US$ 18 milhões em produtos GT até o fim do ano, contra projeção de apenas US$ 6 milhões para itens genéricos de Dragon Ball Super. Enquanto isso, lojistas preocupados com a repressão a sites piratas — acelerada depois do fechamento relâmpago que somava 160 milhões de acessos — comemoram a chance de migrar fãs para o consumo oficial.
O detalhe que passa batido
Existe um motivo técnico para o ressurgimento de Goku SSJ4: o molde 3D usado na nova figura foi criado para um projeto cancelado de 2019, quando a Toei sondou uma minissérie de GT remasterizado. Com os arquivos digitais prontos e amortizados, relançar o personagem custa 40 % menos que fabricar um Goku de DAIMA do zero. Em outras palavras, o fã compra hoje um item que nasceu de uma ideia abortada — e financia, sem perceber, o caixa que bancará a próxima aposta canônica.
Se DAIMA conseguirá retomar a cena quando finalmente chegar é outra história. Por ora, a lógica do “quem paga, manda” faz do Super Saiyajin 4 o garoto-propaganda de Dragon Ball nos EUA — mesmo depois de 27 anos como herói renegado.

