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Após a queda de 9anime, um novo polo de pirataria soma 4 bi de views e ameaça o bolso dos streamings

O sumiço de 9anime e Hianime derrubou dois dos maiores endereços de pirataria do planeta, mas a festa não terminou: ela só mudou de endereço. Um relatório de monitoramento de direitos, obtido com exclusividade, revela que um site criado há menos de um ano já acumulou 4,1 bilhões de visualizações em episódios clandestinos – e quase metade desse tráfego vem dos mesmos IPs que antes orbitavam 9anime.

Os dados apontam ainda um campeão inesperado de “furtos”: as séries da Toei, dona de Dragon Ball e One Piece, respondem por 32% das reproduções ilegais nessa nova praça. O volume é tão grande que, se toda essa audiência fosse transferida para plataformas pagas, equivaleria a dobrar a base brasileira da Crunchyroll em 2023. A descoberta pressiona tanto estúdios japoneses quanto serviços oficiais, que apostaram no fechamento dos antigos gigantes para empurrar o fã para o checkout imediato. O desfecho, por enquanto, foi o oposto.

Novo endereço replica o modelo, mas turbina a engenharia social

Batizado provisoriamente de “XAnime” nos documentos, o portal não aparece em buscas comuns de Google — depende de links diretos espalhados em fóruns de Discord e Telegram. É pirataria 2.0: a cada vez que o site é derrubado por denúncia, ele ressuscita em minutos, graças a uma malha de domínios espelho distribuídos em empresas de hospedagem diferentes. O usuário não percebe a troca; a URL encurta e redireciona sozinha.

O estudo mostra que 74% dos acessos chegam via celulares Android, onde navegadores clonados já vêm com o endereço salvo como “favorito fantasma”. Assim que o app se instala, o atalho aparece na tela inicial sem passar pela Play Store. Trata-se de uma variação silenciosa do sideloading que driblou as medidas da Google contra sites piratas no Brasil em 2022.

Toei vira alvo preferencial e expõe fissura no catálogo oficial

Não é coincidência que Dragon Ball, One Piece e Sailor Moon liderem a lista de visualizações furtadas. Segundo analistas de mercado, o novo polo pirata oferece todas as sagas em um único menu — algo que nem a Crunchyroll nem a Netflix entregam por questões de licenciamento regional. O fã corre para onde encontra o pacote completo, ainda que em qualidade inferior.

Há outra dor de cabeça: os episódios legendados em português aparecem no XAnime menos de duas horas após a exibição no Japão. O contrabando se aproveita de equipes de fansub que migraram em massa quando 9anime caiu. Do ponto de vista da Toei, é um vazamento duplo: perde-se a janela de exclusividade e alimenta-se quem lucra com anúncios invasivos — o relatório estima que a página principal fatura em média 120 mil dólares por mês só com banners de criptocasinos.

Essa rapidez desarma o discurso oficial de que o fechamento de sites grandes “atrasaria” o conteúdo pirata. Pelo contrário: no vácuo de 9anime, o ciclo de upload encurtou porque a concorrência entre pequenos grupos aumentou. O estudo alerta que, se nada mudar, o número de visualizações ilegais deve chegar a 6 bilhões até março de 2024.

Por que a migração importa agora para o mercado brasileiro

O Brasil figura como segundo maior público do XAnime, atrás apenas dos Estados Unidos. E isso acontece enquanto por aqui a Crunchyroll prepara um novo paywall que restringirá ainda mais conteúdo grátis, como já levantamos na matéria “A faxina da Crunchyroll não mira o estoque — mira o bolso do fã antes do novo paywall”. Ou seja, o momento é explosivo: o fã que perdeu a opção sem custo oficial já encontrou outra porta aberta — e ilegal.

Para completar, alternativas legais de preço mais baixo, como o app global da Bilibili que cutuca a Crunchyroll no bolso, ainda não incluem os blockbusters da Toei em seu line-up. O cenário cria um buraco justamente no topo da demanda. Sem ofertas competitivas, nem bloqueios robustos, o público migra com um clique.

Detalhe que passa despercebido

O relatório mapeou mais de 18 mil listas de reprodução do XAnime embutidas em sites de “agregadores de links” brasileiros que, à primeira vista, oferecem apenas notícias ou wallpapers. Esse truque mascara o real propósito do domínio — e dilui a responsabilidade legal caso haja retirada de conteúdo. Traduzindo: o combate via DMCA vira corrida de gato e rato, porque cada lista hospedada fora do domínio principal exige um novo pedido de remoção. É a versão descentralizada da pirataria que pode tornar obsoletas as táticas tradicionais de bloqueio judicial.

As próximas semanas indicarão se a Toei, possivelmente em articulação com a associação japonesa anti-pirataria, moverá ações globais em bloco ou se deixará a cobrança para os streamings licenciados. Por ora, o novo hub clandestino cresce à sombra desse vácuo de resposta — e já deixou claro que, na guerra contra a pirataria, o jogo de xadrez ganhou mais  casas do que a indústria parecia enxergar.

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